
Quase não pude acreditar quando li, na última madrugada, o anúncio da saída de Zico do cargo de diretor executivo de futebol do Flamengo. Uma vitória de supostos rubronegros que instalaram uma máfia dentro do Clube, de onde sempre tiraram seu dinheirinho e fizeram o que bem entenderam.
Este é apenas o mais escancarado dos reflexos da bagunça que tem sido o Flamengo nos últimos anos. Uma entidade que, pelo seu tamanho e sua história, deveria ser pioneira na profissionalização do esporte no Brasil – mas que parou no tempo do amadorismo e vive assim até hoje.
O primeiro a tentar alguma coisa foi Gilmar Rinaldi, que hoje é empresário do Imperador Adriano. Em 1999, o ex-goleiro foi contratado como superintendente de futebol do clube e tentou combater uma máfia que envolvia a administração e as torcidas organizadas. “Quando cheguei ao Flamengo tentei desmontar uma máfia montada pelas organizadas. Tinha sorteio de rifa, bingo, tudo feito com permissão da presidência para manter o apoio político. Tinha jogador dando dinheiro para torcedor… eu me recusei e fui perseguido”. Gilmar saiu.
Pouco tempo depois, um dos maiores ídolos do Fla também tentou. Júnior, o Capacete, foi convidado pelo então presidente Márcio Braga para ficar à frente do Fla-Futebol, um projeto de profissionalização do departamento. Quando soube da contratação de Zico, em 2010, Júnior falou o seguinte: “Só espero que ele tenha autonomia e respaldo financeiro para conseguir fazer o que eu tentei em 2004. Se não tiver isso, as dificuldades vão aparecer”. E ele não teve.
Zico tentou começar um trabalho de organização do Flamengo, algo nunca antes pensado.
Quem entende de gestão esportiva conhece uma pirâmide composta de elementos que regem o “negócio futebol”. Na base está a criação de talentos, os craques para o futuro, fator que está diretamente atrelado à necessidade de se possuir um CT de alto nível. Este patamar é considerado a parte de longo prazo de um negócio.
No segundo estágio, de médio prazo, está a construção de um estádio próprio, fator cuja importância é indiscutível.
No topo, em um espaço um pouco menor, estão os títulos e ídolos, basicamente a única fatia que está no campo de visão do torcedor. A parte do negócio cujos resultados são de curto prazo.
É necessário que se abra mão dos títulos em primeiro plano para preparar a base de sua pirâmide. Cerca de cinco anos em que se fica “na fila”, mas se criam craques na base e uma estrutura que o time necessita para se manter no topo.
Zico tentou dar início a um projeto deste tipo, dando peso ao que realmente falta ao Flamengo: um CT decente, básico para voltar a ser a fábrica de talentos que o clube já foi um dia. Ao invés de receber apoio e respaldo da diretoria, recebeu todos os cortes do amadorismo que rege esta entidade gigante.
É claro que o Galinho não acertou em todas, mas também recebe em suas costas o peso de muitos problemas que não foram sua culpa. Desde o início, avisou que trabalharia em silêncio, mas pessoas ligadas ao Flamengo sempre insistiram em anunciar contratações que dificilmente seriam concretizadas.
Em outros casos, o interesse monetário de jogadores ou empresários deixou bons atletas longe da Gávea.
Apenas um parêntese para contar a história de um dos craques do Brasileirão, o argentino Montillo: O empresário do jogador tinha a proposta do Flamengo em mãos, cujos valores deixavam o meia satisfeito, mas foi até o Cruzeiro e fez um leilão. “Eles pagam isso. Querem cobrir?” – e o clube mineiro aceitou, com a condição de que o contrato fosse acertado na hora.
Voltando ao ambiente da Gávea, grande parte destas histórias de quase-profissionalização do futebol tem um personagem em comum: Capitão Léo, ex-presidente da Torcida Jovem Fla e atual presidente do Conselho Fiscal. A pessoa que esteve presente quando Gilmar Rinaldi foi derrubado e o grande – e declarado – inimigo interno que o Galinho encontrou em seu retorno à Gávea.
Leonardo Ribeiro, aliás, também foi um dos responsáveis pela aprovação das contas do ex-presidente Edmundo Santos Silva no Conselho Fiscal, em 1999. Após ser reeleito em 2000, Edmundo sofreu impeachment em menos de dois anos.
“Para dizer a verdade não me surpreende todas essas pressões. Eu mesmo já passei por isso em 2004. O que eu vi foi uma grande maioria que era contra algo que possa dar um novo rumo o Flamengo”. Júnior disse isso hoje, em entrevista à rádio CBN. Uma opinião que expõe que o “Capitão Léo” não é o único, mas parte de um grupo que trata o Flamengo como seu quintal, ou qualquer coisa pior que isso. Pessoas que adoravam a folga que tinham no clube e não gostaram quando Zico chegou querendo mudar, tirando todos da sua zona de conforto, buscando a disciplina.
Em 2009, o Flamengo foi Campeão Brasileiro porque tinha, em campo, jogadores que colocaram o coração na ponta da chuteira e um técnico que manteve a humildade e a união no grupo. Em 2010, a magia se desfez. Aí está o topo da pirâmide, as medidas de curto prazo.
Se não houver mudanças administrativas, uma real profissionalização do futebol e do clube como um todo, a entidade sofrerá as conseqüências. O Flamengo corre o risco, por exemplo, de ser rebaixado, mais cedo ou mais tarde.
Para alguns clubes, o rebaixamento rendeu bons frutos, uma reorganização, um crescimento. Mas é o pior dos caminhos para a reestruturação. Diminuem os investimentos, os interesses e o nível do esporte. Ninguém sai ganhando.
Tenho certeza que, contra o Botafogo, os atletas vão correr muito para honrar o nome do Zico. Nem sempre correr significa vencer, mas a torcida deve abraçar os jogadores e empurrá-los neste momento, assim como deve protestar contra os desmandos ocorridos na gestão do clube há tantos anos.
Que esta grande crise sirva para acordar um movimento que lute por transparência e ética.